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Fernanda Daniel Conversa inicial
Carreira

Transição de carreira para executivos: como decidir e planejar a mudança

Por Fernanda Daniel, psicóloga (CRP 06/100698) · · 7 min de leitura

Transição de carreira é mudar de área, de função ou do modelo de trabalho, como trocar a diretoria de uma empresa por uma carreira de conselho ou sair do corporativo para empreender. Para um executivo, a decisão fica mais segura quando você entende o que está incomodando e testa o novo caminho em pequena escala, ainda empregado, antes de mudar de vez.

Escuto com frequência, de executivos que estão no auge, uma frase parecida com esta: "eu gosto do que faço, só não me vejo fazendo isso pelos próximos quinze anos". Quase sempre ela vem logo depois de uma boa notícia, como um bônus ou uma promoção, e por isso a pessoa sente culpa de dizer em voz alta. Quando a carreira vai bem por fora, a vontade de mudar parece ingratidão, e tem gente que guarda essa dúvida por anos.

Mudar de empresa, de função ou de carreira?

Nem toda vontade de mudança pede uma transição de carreira. Antes de qualquer plano, separe três movimentos que chegam misturados na cabeça de quem está cansado do lugar onde está.

MovimentoExemploO que você levaO que precisa construir
Mudar de empresaA mesma função, em outro setor ou numa empresa de outro porteQuase tudo, do cargo à redeUm bom motivo para a troca e uma leitura atenta da cultura nova
Mudar de função ou de áreaDa operação para a estratégia, da diretoria para um conselhoA experiência de gestão e a reputaçãoConhecimento técnico novo e gente que fale por você na área nova
Mudar de modeloEmpreender, abrir uma consultoria, dar aulasA rede e o tipo de problema que você sabe resolverRenda nos primeiros anos e uma rotina sem a estrutura de uma empresa

Se o que incomoda é o chefe, a cultura ou o ritmo de uma empresa específica, a primeira linha talvez resolva, e eu escrevi sobre essa escolha em ficar, mudar de empresa ou mudar de rumo. As outras duas linhas pedem mais tempo e alguma experiência antes da decisão.

O incômodo é com a carreira ou com o momento?

É a primeira pergunta que eu faço, porque cansaço e vontade de mudar se parecem de longe. Um ano de metas puxadas, uma reestruturação ou um chefe novo deixam qualquer pessoa com vontade de ir embora, e essa vontade passa quando o momento passa. A vontade de mudar de carreira insiste mesmo nas semanas boas.

  • Se o seu chefe e a sua empresa mudassem amanhã, você ainda ia querer sair da área?
  • O que você toparia testar por alguns meses, mesmo sem ganhar nada com isso no começo?
  • Quando imagina o próximo cargo da sua trilha atual, você sente vontade ou alívio por ainda não estar lá?
  • Você quer deixar o trabalho ou quer deixar o jeito como vem trabalhando?

Se o cansaço já aparece no sono, no humor e na saúde há semanas, procure um profissional de saúde antes de decidir qualquer coisa. Quem decide no limite das forças às vezes troca de endereço e leva o mesmo cansaço junto. Para a pressão do dia a dia, deixei algumas práticas em como lidar com a pressão no trabalho.

Por que o plano perfeito no papel trava a mudança

O conselho tradicional manda descobrir primeiro quem você é e o que quer, e só depois agir. A professora Herminia Ibarra, da London Business School, acompanhou profissionais em plena transição e chegou à conclusão oposta. A gente descobre o que quer fazendo, e quem espera ter certeza para se mexer tende a ficar parado na carreira errada. Ela chama isso de testar e aprender, no lugar de planejar e executar.

Na prática, significa criar experimentos pequenos, com prazo e sem pedir demissão. Pode ser um projeto paralelo, um assento num conselho consultivo, algumas aulas como convidado ou uma série de conversas com quem já faz o que você imagina fazer. Depois de cada experimento, pergunte o que você aprendeu sobre si que não sabia antes. Alguns caminhos que pareciam o sonho perdem a graça na segunda semana, e outros, que nem estavam na lista, ganham força.

Mudar de carreira depois dos 40

A vontade é comum nessa fase. Um levantamento da consultoria Korn Ferry, divulgado em 2025, apontou que 58% dos profissionais brasileiros a partir dos 40 anos pretendem mudar de carreira nos próximos anos. A média mundial ficou em 47%.

Quando eu contratava executivos, a idade raramente era o que travava quem vinha de outra área. O que travava era a história. A pessoa listava vinte anos de conquistas e não conseguia explicar, em dois minutos, por que queria aquele lugar novo e o que levava para ele. Quem chegava com essa resposta pronta era ouvido de outro jeito na sala.

Depois dos 40, você leva para a carreira nova uma rede que levou décadas para formar e a capacidade de decidir com informação incompleta. O que dói é outra coisa. Voltar a ser iniciante em algum ponto, ganhar menos por um tempo e perder o sobrenome da empresa no crachá. Olhe para essas perdas com calma antes de mudar, para que elas não apareçam de surpresa no terceiro mês.

Um plano de transição em quatro movimentos

  1. Escreva o que fica e o que sai. Liste o que você quer levar da carreira atual, como o tipo de problema que gosta de resolver ou o nível de autonomia, e o que não quer mais. Essa lista vira o filtro para avaliar qualquer caminho novo.
  2. Experimente antes de decidir. Escolha dois ou três experimentos com prazo de alguns meses e combine consigo mesmo o que vai contar como sinal de que vale continuar.
  3. Prepare a história da mudança. Antes de procurar vagas ou clientes, saiba contar por que está mudando e o que leva para o lugar novo. Mostro como construir essa história em narrativa de carreira, e como levá-la para o perfil público em LinkedIn para executivos.
  4. Monte a ponte. Defina de quanto tempo de reserva você precisa, quem depende de você e a data em que vai decidir, com o que tiver aprendido até lá. Transição sem data vira um projeto eterno de fim de semana.

Se o que você quer é crescer dentro da carreira executiva, a lógica é outra, e ela está no planejamento de carreira para os próximos 12 meses.

Onde a mentoria entra numa transição

Uma mentoria para transição de carreira serve, antes de tudo, para pensar em voz alta com alguém de fora da empresa. Nem sempre dá para ter essa conversa com o chefe ou com o RH. Na minha mentoria de carreira, a decisão de ficar, mudar de empresa ou mudar de rumo é uma das frentes de trabalho. Eu ajudo você a desenhar os experimentos, a entender como o mercado olha para quem vem de outra área e a contar essa história. Nada disso sai da mentoria, e se quiser saber como as etapas são organizadas, leia como funciona a mentoria de carreira.

Perguntas frequentes

Qual é a melhor idade para fazer uma transição de carreira?

Não existe uma idade certa. Com os anos, mudam o que você leva e o que arrisca. Depois dos 40, a experiência abre portas, e a reserva financeira e a família entram com mais força na conta.

Quanto tempo leva uma transição de carreira?

Depende da distância entre onde você está e onde quer chegar. Mudar de modelo, como empreender, pede um período de experimentação antes da saída. Trabalhe com marcos, como o fim de um experimento, em vez de um prazo fechado.

Preciso pedir demissão para mudar de carreira?

Na maioria dos casos, não. Boa parte desses experimentos cabe na rotina de quem ainda está empregado, desde que respeite o seu contrato e as regras da empresa. A saída fica para quando você já tiver sinais de que o caminho novo funciona para você.

Mentoria para transição de carreira funciona online?

Funciona. A conversa é por vídeo, o que ajuda quem ainda está empregado e pensa em sair, porque ela acontece longe do escritório e de quem poderia ouvir.

Fontes

  1. Ibarra, H. How to Stay Stuck in the Wrong Career. Harvard Business Review, dezembro de 2002.
  2. Ibarra, H. Working Identity: Unconventional Strategies for Reinventing Your Career. Harvard Business School Press, 2003.
  3. Korn Ferry. Levantamento sobre a intenção de mudar de carreira entre profissionais a partir dos 40 anos (58% no Brasil, 47% na média mundial), divulgado pelo portal TNH1 em 3 de outubro de 2025.
Fernanda Daniel

Sobre a autora

Fernanda Daniel é psicóloga (CRP 06/100698), mentora de executivos e especialista em Performance Emocional Executiva. Passou 24 anos no RH de empresas como Mercado Livre, Grupo Hinode, iFood, Favo e LLYC, onde foi Diretora Executiva de Talentos para 11 países. É formada em Psicologia, com MBA em Administração Estratégica de Pessoas pela FAAP, pós-graduação em Neurociência, Psicologia Positiva e Mindfulness pela PUC e certificações em coaching executivo pela ICF.

Conheça a trajetória dela