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Carreira

Marca pessoal para executivos: como contar a sua trajetória em entrevistas, conselhos e redes

Por Fernanda Daniel, psicóloga (CRP 06/100698) · · 6 min de leitura

Marca pessoal para executivos é o jeito como as pessoas que decidem sobre você descrevem o seu trabalho quando você não está na sala. Ela se apoia numa narrativa de carreira simples, que liga o que você já fez ao que quer fazer depois, contada do mesmo jeito na entrevista, na conversa com o conselho e no LinkedIn.

Todo executivo tem uma marca pessoal, queira ou não. Ela é a frase que um ex-chefe diz sobre você quando um headhunter liga pedindo referência, e quase ninguém sabe qual é essa frase. Às vezes ela ajuda, como "é quem você chama quando a operação está um caos". Às vezes atrapalha, como "entrega bem, mas não tem visão de negócio", dita por alguém que viu você numa única fase da carreira.

Narrativa de carreira e currículo fazem trabalhos diferentes

O currículo lista o que você fez. A narrativa explica o fio que liga essas escolhas e por que o próximo passo faz sentido. Herminia Ibarra e Kent Lineback escreveram sobre isso na Harvard Business Review em 2005, pensando em quem estava mudando de carreira. Para eles, uma boa história profissional ajuda os outros a acreditar no seu caráter e na sua capacidade de dar um salto sem cair.

No topo da carreira, essa lógica vale bem além da entrevista. Conselheiros, investidores, headhunters e pares formam uma ideia sobre você a partir de poucas conversas, e quando você não oferece um fio, cada um inventa o seu.

As três partes de uma boa narrativa

  • De onde você vem. Em vez da cronologia inteira, o tipo de problema que as empresas sempre chamaram você para resolver.
  • O que você entregou. Dois ou três resultados com contexto, que provam esse padrão sem precisar de adjetivos.
  • Para onde você vai. O próximo cargo ou o próximo tipo de desafio, dito pelo nome.

A coerência entre as três partes importa mais do que uma carreira em linha reta. Uma mudança de área, um período fora do mercado ou um cargo que não deu certo cabem na história quando você conta o que levou de cada um. O que enfraquece a narrativa é pular esses trechos e torcer para ninguém perguntar.

A mesma trajetória contada de dois jeitos

Veja a diferença num exemplo genérico, com a mesma carreira nas duas colunas.

Contada em ordemContada como narrativa
"Comecei como analista financeira, fui para uma multinacional como coordenadora, depois virei gerente e hoje sou diretora de planejamento.""Desde o começo da carreira, eu organizo empresas que crescem mais rápido do que os próprios processos. Fiz isso na área financeira e hoje faço no planejamento. Quero levar essa experiência para a cadeira de CFO de uma empresa em expansão."

A segunda versão diz qual problema a pessoa resolve, prova com a trajetória e termina com um pedido claro. Quem ouve consegue repetir a história para outra pessoa, e é disso que uma marca pessoal precisa.

Para saber se a sua versão funciona, faço com os meus mentorados uma checagem simples. Conte a sua narrativa a alguém de fora da sua área e peça que a pessoa diga, numa frase, o que você faz e o que procura. Se a frase que volta não é a que você queria ouvir, o problema está na história, e não em quem ouviu. Ajuste e repita com outra pessoa até a frase voltar certa.

Como adaptar a mesma história a cada lugar

Marca pessoal sem virar vitrine

Muitos executivos que acompanho torcem o nariz para a expressão marca pessoal, porque a associam a quem posta todo dia sobre si. Entendo. O que proponho é mais discreto: ter uma história verdadeira, contá-la com consistência e deixar que o trabalho e algumas pessoas certas a repitam.

Isso inclui pedir. Pedir a um ex-chefe que conte um projeto seu quando for consultado, ou a um par que se lembre do seu nome quando surgir uma vaga. Para muita gente, esse pedido é mais difícil do que qualquer apresentação ao conselho.

Por que é tão difícil falar de si mesmo?

Muitos líderes contam com facilidade o resultado do time e travam para contar o próprio. Parece arrogância, ou parece que o mérito foi de todos. Nas mentorias, às vezes eu peço que a pessoa escreva primeiro a história de um colega que admira, com o mesmo cuidado, e só depois a dela. A diferença de generosidade entre as duas versões surpreende quase todo mundo.

Nenhuma narrativa precisa esconder o trabalho do time. Ela só precisa deixar claro qual foi a sua parte nele.

Perguntas frequentes

O que é marca pessoal para executivos?

É a ideia que as pessoas que decidem sobre a sua carreira, como conselheiros, CEOs, headhunters e pares, têm do seu trabalho. Ela se constrói com uma narrativa de carreira consistente e com o que essas pessoas ouvem de quem trabalhou com você.

Como contar a minha trajetória numa entrevista?

Em cerca de dois minutos, diga que tipo de problema você resolve, dê dois ou três exemplos de resultado com contexto e termine ligando a sua experiência ao desafio da vaga. Deixe a cronologia completa para o currículo.

Como explicar uma demissão ou uma mudança de área?

Conte em uma ou duas frases o que aconteceu, sem rodeio, e passe para o que você levou da experiência e para o que quer agora. Quem conduz processos de liderança sabe que carreiras longas têm curvas. Escrevi mais sobre esse momento no artigo de recolocação profissional para executivos.

Preciso postar no LinkedIn para ter marca pessoal?

Não precisa postar todo dia. Um perfil que conte a mesma história da sua narrativa e alguns textos bem escolhidos ao longo do ano já dão às pessoas um jeito de entender o seu trabalho.

Fontes

  1. Ibarra, H.; Lineback, K. What's Your Story? Harvard Business Review, v. 83, n. 1, janeiro de 2005, p. 64-71.
Fernanda Daniel

Sobre a autora

Fernanda Daniel é psicóloga (CRP 06/100698), mentora de executivos e especialista em Performance Emocional Executiva. Passou 24 anos no RH de empresas como Mercado Livre, Grupo Hinode, iFood, Favo e LLYC, onde foi Diretora Executiva de Talentos para 11 países. É formada em Psicologia, com MBA em Administração Estratégica de Pessoas pela FAAP, pós-graduação em Neurociência, Psicologia Positiva e Mindfulness pela PUC e certificações em coaching executivo pela ICF.

Conheça a trajetória dela