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Recolocação

Processo seletivo para cargos de liderança: como se preparar para cada etapa

Por Fernanda Daniel, psicóloga (CRP 06/100698) · · 7 min de leitura

Um processo seletivo para cargos de liderança passa, em geral, por uma triagem com recrutador ou headhunter, entrevistas com o RH e com o gestor da vaga, um case ou apresentação e conversas com pares. Nos cargos mais altos, entram o CEO ou o conselho. Avaliações comportamentais e checagem de referências vêm no meio ou no fim, e cada etapa pede uma preparação diferente.

Em processos de diretoria que acompanhei no RH, vi mais de uma vez o candidato com o currículo mais forte sair na metade do caminho. Faltou preparo para a etapa, e não competência. Ele se preparou para provar que sabia fazer e chegou à conversa com os futuros pares sem ter pensado no que eles queriam saber, que era como seria trabalhar com ele numa semana difícil.

As etapas mais comuns e o que cada uma avalia

A ordem varia de empresa para empresa, e nem todo processo tem todas as etapas. A lógica, porém, se repete, porque cada conversa responde a uma pergunta diferente sobre você.

EtapaO que estão avaliandoComo se preparar
Triagem com recrutador ou headhunterSe o seu momento, a sua motivação e a sua faixa de remuneração combinam com a vagaUma história de dois minutos sobre a trajetória e um motivo claro para a mudança
Entrevista com o RHCompetências de liderança e afinidade com a culturaSituações reais, com o que você fez e o que aconteceu depois
Entrevista com o gestor da vagaSe você resolve o problema que ele tem hojePesquisa sobre o negócio e perguntas sobre o que ele espera do primeiro ano
Case ou apresentaçãoRaciocínio, prioridade e comunicação com pouco tempoEstrutura simples, premissas ditas em voz alta e uma recomendação no fim
Conversa com paresComo é trabalhar com você quando há conflitoHistórias de colaboração e de discordância bem resolvida
CEO ou conselhoVisão de negócio, julgamento e sintonia com a direção da empresaUm ponto de vista seu sobre o setor e sobre o momento da empresa
Avaliações comportamentaisEstilo de trabalho, preferências e pontos de atençãoResponder com sinceridade, sem tentar adivinhar o perfil desejado
ReferênciasSe o que você contou se confirmaAvisar antes quem vai ser procurado e lembrar o que vocês fizeram juntos

A triagem merece mais atenção do que recebe. É ali que o recrutador decide se leva o seu nome adiante, e é comum o executivo tratar essa ligação como conversa informal. Tenha o currículo atualizado e saiba contar em dois minutos por que você está ouvindo propostas agora.

Como responder às perguntas por competência?

Com uma situação real, contada em ordem. Em 2022, uma revisão de pesquisas de Paul Sackett e colegas, no Journal of Applied Psychology, pôs a entrevista estruturada no topo dos métodos de seleção que melhor preveem o desempenho. Isso ajuda a entender por que tantas entrevistas para liderança trazem perguntas como "conte uma situação em que você precisou demitir alguém do time" ou "fale de uma decisão que deu errado". Quem pergunta quer ver o que você fez, e não o que acha que faria.

Uma ordem que funciona é situação, tarefa, ação e resultado, conhecida pela sigla em inglês STAR. Na mentoria, peço que o executivo prepare oito a dez situações antes de qualquer processo e que cada uma caiba em dois minutos. Na hora de contar, três cuidados melhoram bastante a resposta de quem lidera.

  • Fale "eu" quando a ação foi sua, mesmo que o resultado tenha sido do time.
  • Inclua o que deu errado e o que você aprendeu, porque história sem tropeço soa ensaiada.
  • Termine com o resultado, com número quando puder, e com o efeito nas pessoas.

As situações que mais aparecem em processos de liderança envolvem conflito no time, uma decisão impopular, uma demissão, um projeto que falhou, uma mudança que você conduziu e uma discordância com o chefe. Para essa última, deixei algumas ideias em como discordar do chefe.

Entrevista de emprego para gerente ou para diretor?

A preparação é parecida, e a ênfase de cada conversa é outra. Numa entrevista de emprego para gerente, a conversa gira em torno de time e execução: como você organiza o trabalho, dá feedback, desenvolve pessoas e entrega o combinado. Para diretor, entram os pares, a influência sem autoridade, o orçamento e as escolhas sobre o que não fazer. No C-level, o centro passa a ser o negócio inteiro, a cultura e a relação com o conselho.

Se você está subindo de nível, prepare exemplos do nível que quer ocupar, e não só do que já ocupa. Um gerente que já negociou orçamento com outras diretorias ou já apresentou ao comitê executivo tem histórias de diretor, e precisa contá-las.

O case e a apresentação

Pergunte antes quais critérios serão usados e quanto tempo você terá. Diga as premissas em voz alta, porque o avaliador quer ver como você pensa quando faltam dados. E termine com uma recomendação, mesmo que imperfeita. Vi executivos experientes apresentarem uma análise impecável e não dizerem o que fariam na segunda-feira.

Menos slides ajudam. Se o tempo é de vinte minutos, eu prepararia algo que coubesse em quinze, para sobrar espaço para as perguntas, que é onde a conversa acontece.

As suas perguntas também são avaliadas

No fim de cada entrevista, alguém vai perguntar se você tem dúvidas. Em cargos de liderança, essa parte conta tanto quanto as respostas, porque mostra o que você olha antes de aceitar um desafio. Quando eu estava do lado do RH, gostava de ouvir perguntas como estas:

  • "Por que a posição está aberta?"
  • "O que faria vocês dizerem, daqui a um ano, que acertaram na contratação?"
  • "Qual é a decisão mais difícil que esta área vai ter de tomar nos próximos meses?"
  • "Como esta área se relaciona com as outras diretorias?"

Deixe remuneração para quando a empresa trouxer o assunto ou para a fase de proposta, a menos que a faixa seja um filtro para você desde o começo. Como conduzir essa conversa está em como negociar uma proposta executiva.

A espera também faz parte do processo

Um processo para diretoria pode levar semanas ou meses, com intervalos longos sem notícia. Nessa espera, é comum reler cada resposta da última entrevista e tirar conclusões sobre um silêncio que quase sempre é só agenda. No fim de cada etapa, combine com o recrutador quando você terá retorno, e siga com a sua vida e com outros processos até lá.

Se não for aprovado, peça um retorno. Nem toda empresa dá, mas, quando vem, o retorno ajuda a ajustar a próxima preparação. Para os dias em que a cobrança interna aperta, escrevi sobre como lidar com pressão no trabalho. E, se a resposta for sim, os primeiros meses têm um plano próprio, que descrevo em primeiros 100 dias no novo cargo.

Perguntas frequentes

Quantas etapas tem um processo seletivo para diretor?

Varia de empresa para empresa. Um processo completo junta triagem, RH, gestor da vaga, pares e, nos cargos mais altos, CEO ou conselho, além de avaliações comportamentais e checagem de referências.

Como me preparar para uma entrevista por competências?

Prepare oito a dez situações reais da sua trajetória, cada uma contada na ordem situação, tarefa, ação e resultado. Treine em voz alta, inclua o que deu errado e fale "eu" quando a ação foi sua.

Posso pedir feedback quando não sou aprovado?

Pode, com educação e sem discutir a decisão. Pergunte ao recrutador ou ao headhunter o que levou à escolha e o que você poderia ter mostrado melhor.

O que perguntar no fim de uma entrevista para cargo de liderança?

Pergunte por que a posição está aberta, o que seria sucesso no primeiro ano e quais decisões difíceis a área tem pela frente. São perguntas que mostram como você pensa antes de aceitar um desafio.

Fontes

  1. Sackett, P. R.; Zhang, C.; Berry, C. M.; Lievens, F. Revisiting meta-analytic estimates of validity in personnel selection: Addressing systematic overcorrection for restriction of range. Journal of Applied Psychology, v. 107, n. 11, p. 2040-2068, 2022.
Fernanda Daniel

Sobre a autora

Fernanda Daniel é psicóloga (CRP 06/100698), mentora de executivos e especialista em Performance Emocional Executiva. Passou 24 anos no RH de empresas como Mercado Livre, Grupo Hinode, iFood, Favo e LLYC, onde foi Diretora Executiva de Talentos para 11 países. É formada em Psicologia, com MBA em Administração Estratégica de Pessoas pela FAAP, pós-graduação em Neurociência, Psicologia Positiva e Mindfulness pela PUC e certificações em coaching executivo pela ICF.

Conheça a trajetória dela