Currículo executivo para gerência e diretoria: o que entra e o que sai
Por Fernanda Daniel, psicóloga (CRP 06/100698) · · 7 min de leitura

Um currículo executivo mostra, em até duas páginas, o tamanho do que você liderou e o resultado que deixou em cada cargo. Entram um resumo de abertura, o escopo de cada posição, as conquistas com número e a formação que a vaga pede. Saem a lista de tarefas, o objetivo genérico, os cursos antigos e tudo o que obriga quem lê a adivinhar o seu nível.
Em 2018, a Ladders, um site americano de vagas, usou rastreamento ocular para medir quanto tempo recrutadores passavam na primeira leitura de um currículo. Deu 7,4 segundos, em média. O número é discutido até hoje e eu não faria dele uma regra, mas ele combina com o que vivi em 24 anos de RH. A primeira leitura é uma triagem rápida, e quem lê procura duas informações antes de qualquer outra: o cargo e o tamanho do que você já fez.
O que quem contrata procura num currículo de liderança?
Quando eu abria um currículo para uma vaga de gerência ou diretoria, a pergunta na minha cabeça era uma só. Essa pessoa já resolveu um problema do tamanho do nosso? O resto da leitura servia para confirmar ou descartar essa impressão, e por isso o currículo para cargo de liderança precisa deixar quatro coisas à vista logo na primeira página.
- O escopo, ou seja, quantas pessoas você liderou, de quais áreas e em quantas unidades ou países.
- O tamanho do negócio sob a sua responsabilidade, em orçamento, receita ou carteira, até onde a confidencialidade permite.
- O contexto em que você chegou, porque fazer crescer uma área em expansão é um trabalho diferente de reorganizar uma área em crise.
- O resultado, de preferência com número e com o prazo em que aconteceu.
O erro que mais vi em currículos de gerentes e diretores foi descrever a área no lugar da pessoa. "Responsável pela área comercial da região Sul" conta onde você estava, mas deixa de fora o que aconteceu ali porque você estava.
O resumo de abertura decide se o resto será lido
São quatro a seis linhas no topo da primeira página, logo abaixo do nome e dos contatos. Ali entram o seu nível, a sua área, os setores por onde passou e o tipo de desafio em que você é bom. Deixe de fora o "profissional dinâmico e proativo", porque ele serve para qualquer pessoa e não conta nada sobre você.
Para mostrar a forma, um exemplo hipotético:
"Executiva de operações com passagem por indústria e varejo. Liderei times de várias regiões em fases de expansão e de reestruturação, e sou chamada quando é preciso integrar operações depois de uma aquisição. Falo inglês e espanhol e já liderei equipes em mais de um país."
Como transformar tarefa em conquista
Na mentoria, peço que cada linha de experiência siga a mesma ordem: um verbo de ação, o que você fez, o resultado e o contexto. A diferença aparece quando uma versão fica ao lado da outra. Os exemplos da tabela são hipotéticos e servem só para mostrar o desenho da frase.
| Em vez de | Escreva algo como |
|---|---|
| Responsável pela gestão da equipe de vendas | Reorganizei a equipe de vendas por segmento de cliente e encurtei o ciclo de venda em um terço em um ano e meio |
| Participação no projeto de implantação do ERP | Liderei a troca do sistema de gestão em seis unidades sem interromper o faturamento |
| Gestão de pessoas e desenvolvimento do time | Preparei dois sucessores internos, que hoje são gerentes, e reduzi a rotatividade da área no ano seguinte |
| Atuação junto à diretoria em decisões estratégicas | Levei ao conselho o plano de entrada num novo mercado, que foi aprovado e executado |
Três a cinco conquistas por cargo bastam para os últimos dez ou quinze anos. Os cargos mais antigos podem virar uma linha cada, com empresa, cargo e período. Se um número é confidencial, use proporção ("um terço", "o dobro") ou ordem de grandeza, e o leitor entende o tamanho sem que você quebre nenhum acordo.
O que sai do currículo executivo
Cortar é a parte que os executivos mais adiam, porque cada linha lembra um esforço. Na minha lista do que pode sair sem medo estão estes itens:
- o objetivo profissional genérico, que o resumo de abertura substitui com vantagem;
- a lista de atribuições copiada da descrição do cargo;
- cursos curtos de mais de dez anos atrás e treinamentos internos sem relação com a vaga;
- foto, estado civil, números de documentos e endereço completo, já que a cidade basta;
- a frase "referências disponíveis mediante solicitação", que todo recrutador já supõe;
- a pretensão salarial, que é assunto para a conversa e não para o papel.
Quantas páginas e em que formato?
Para gerência e diretoria, duas páginas resolvem a maioria dos casos. Uma trajetória longa no C-level pode pedir uma terceira, desde que cada linha continue merecendo estar lá. Mande em PDF, numa coluna só, com títulos de seção bem marcados e as datas alinhadas à direita.
O estudo da Ladders também observou que os currículos que prendiam a atenção tinham leiaute simples e seções bem marcadas. Colunas múltiplas, páginas carregadas e frases longas atrapalhavam. No RH eu via outro problema, porque nos sistemas de recrutamento o currículo cheio de tabelas, ícones e duas colunas às vezes chegava embaralhado para quem ia ler.
Um currículo para cada vaga?
Sim, a partir de uma versão-mãe. Mantenha um arquivo completo, com todas as conquistas que você consegue defender numa entrevista, e monte a versão de cada processo a partir dele. De uma vaga para outra, mudam o resumo de abertura e a ordem das conquistas, que deve seguir o que a empresa disse precisar. Se a vaga fala em expansão internacional, a sua experiência em outros países sobe para a primeira linha.
E as lacunas? Um período sem trabalhar, um ano sabático ou uma saída depois de uma reestruturação se resolvem com uma linha honesta, sem drama. Quem lê se incomoda mais com o buraco sem explicação do que com a explicação. Escrevi sobre como contar a saída em recolocação executiva.
Currículo, LinkedIn e entrevista precisam contar a mesma história
Quando eu chamava alguém para uma conversa de diretoria, o perfil do LinkedIn era a segunda coisa que eu abria, logo depois do currículo. Se o currículo dizia uma coisa e o perfil dizia outra, com datas que não batiam ou cargos com nomes diferentes, a dúvida entrava antes da primeira pergunta. Por isso, na trilha de carreira da minha mentoria, currículo, LinkedIn e narrativa de carreira são trabalhados juntos.
Se você vai rever tudo de uma vez, leia também os textos sobre LinkedIn para executivos e sobre narrativa de carreira, o jeito de contar a mesma trajetória em voz alta. Quando o currículo abrir a porta, o passo seguinte é a preparação para o processo seletivo para cargos de liderança.
Perguntas frequentes
Quantas páginas deve ter um currículo executivo?
Duas, na maioria dos casos de gerência e diretoria. Uma trajetória longa no C-level pode chegar a três, desde que nada ali esteja só para ocupar espaço.
Precisa colocar foto no currículo executivo?
Eu não colocaria. A sua foto já está no LinkedIn, e o espaço da primeira página rende mais com o resumo de abertura e as primeiras conquistas.
Coloco a pretensão salarial no currículo?
Não. Remuneração se conversa com o recrutador ou com o headhunter, quando você já sabe o tamanho do cargo. Deixei algumas orientações em como negociar uma proposta executiva.
Como mostrar resultados se os números são confidenciais?
Use proporções, como "o dobro" ou "um terço", ou a ordem de grandeza. Também dá para descrever o resultado pelo efeito no negócio, como a abertura de um mercado ou um prazo que caiu pela metade.
Fontes
- Ladders. Eye-Tracking Study, 2018. Resumo em HR Dive, "Eye tracking study shows recruiters look at resumes for 7 seconds", 8 de novembro de 2018.
