Quando mudar de emprego: como decidir entre ficar, mudar de empresa ou mudar de rumo
Por Fernanda Daniel, psicóloga (CRP 06/100698) · · 6 min de leitura

Para saber quando mudar de emprego, o executivo precisa separar o incômodo com a empresa do incômodo com a carreira. Se o problema é o lugar, outra empresa pode resolver. Se é o próprio trabalho, outra empresa entrega o mesmo trabalho com outro logotipo, e a pergunta passa a ser se é hora de mudar de rumo. E ficar também pode ser uma boa decisão, desde que seja escolhida.
Você já ficou numa empresa um ano a mais do que queria só porque não sabia para onde ir? Ou saiu correndo de um chefe difícil e, seis meses depois, percebeu que o que incomodava tinha vindo junto na mudança? Vejo as duas situações com frequência na mentoria, e elas começam do mesmo jeito, com uma decisão grande tomada sem saber direito o que está incomodando.
Três caminhos, três perguntas
Antes de atualizar o currículo, descubra em qual dos três caminhos você está, porque cada um pede uma pergunta diferente.
| Caminho | Quando faz sentido | A pergunta que testa |
|---|---|---|
| Ficar | Ainda há espaço para crescer, e o que incomoda pode ser negociado | O que precisaria mudar aqui, e alguém com poder de decisão já sabe disso? |
| Mudar de empresa | O trabalho ainda faz sentido, e o lugar não, por causa da cultura, da liderança ou do teto do cargo | Eu faria o mesmo trabalho com vontade em outro lugar? |
| Mudar de rumo | O que cansa é o trabalho em si, em qualquer empresa | Do que eu sinto falta, e já experimentei isso de alguma forma? |
Quando ficar é a melhor escolha
Mudar de empresa tem um custo de entrada que quase ninguém coloca na conta. Matthew Bidwell, professor da Wharton, comparou profissionais contratados de fora com colegas promovidos internamente para funções parecidas, num banco de investimento americano. Os de fora ganhavam de 18% a 20% a mais e recebiam avaliações de desempenho piores nos dois primeiros anos. Os que ficavam além desse período passavam a ser promovidos mais rápido.
Leio esse estudo assim: numa empresa nova, você leva tempo para aprender como as coisas funcionam e para reconstruir a confiança que já tinha no lugar antigo. Às vezes vale pagar esse preço. Só convém saber que ele existe antes de pedir demissão.
Por isso eu peço aos meus mentorados uma conversa que muita gente pula, a de dizer a quem decide o que querem para os próximos dois anos. No RH, vi bons profissionais pedirem demissão por um espaço que a empresa teria oferecido se soubesse que eles queriam. Escrevi sobre essa conversa em como ser promovido.
Sinais de que é hora de mudar de empresa
- Você já disse o que quer, sem meias palavras, e a resposta veio vaga mais de uma vez.
- A empresa mudou de dono, de CEO ou de estratégia, e você não se reconhece mais nas decisões.
- O cargo acima do seu está ocupado por alguém que não vai sair, e não existe outro caminho para crescer.
- Você passou a defender em público decisões com as quais não concorda em particular.
- O desgaste já aparece fora do trabalho, no sono, no humor e em casa.
Esse último sinal vem antes dos outros. Se o desgaste já chegou à saúde, cuide dela primeiro, com um profissional se for preciso, e deixe a decisão de carreira para quando conseguir pensar nela com algum descanso.
Antes de sair, negocie para ficar
Muita gente pede demissão sem ter feito o pedido que poderia resolver o incômodo. Ficar bem, numa empresa de que você ainda gosta, quase sempre depende de uma mudança que alguém precisa autorizar. Alguns exemplos que vejo funcionar são um escopo maior, um projeto que dê a você experiência nova, a troca de área sem trocar de empresa ou uma data combinada para a próxima avaliação de cargo.
Leve esse pedido como levaria uma proposta de negócio, com o que você quer, o que entrega em troca e até quando precisa de resposta. Se a resposta vier vaga, você terá aprendido algo sobre o seu futuro ali, e a decisão de sair fica mais fácil e mais limpa. Se a empresa fizer uma contraproposta depois que você avisar que vai sair, veja o que escrevi sobre ela em negociar a proposta.
E quando o incômodo é com a carreira?
Se você se viu na terceira linha da tabela, a decisão é outra e pede mais tempo, com experiências pequenas antes de qualquer pedido de demissão. Escrevi um artigo inteiro sobre como fazer uma mudança de carreira, com um plano em quatro movimentos.
Um exercício para decidir sem se enganar
Pegue uma folha e escreva o que você quer ter daqui a três anos em quatro frentes: o trabalho que faz, as pessoas com quem trabalha, quanto ganha e como vive fora do trabalho. Depois, ao lado de cada frente, marque o que a empresa atual pode oferecer, o que outra empresa ofereceria e o que só uma mudança de rumo traria. Em geral, uma das três colunas se destaca com folga.
Se ganha a empresa atual, a próxima tarefa é negociar o seu espaço. Se ganha outra empresa, prepare a saída antes de avisar, entendendo como funciona o recrutamento de executivos e o que pedir quando a proposta chegar. Se ganha a mudança de rumo, comece pequeno. Seja qual for a resposta, ela vira o ponto de partida de um plano de carreira para os próximos 12 meses, que dá forma ao seu desenvolvimento de carreira depois da decisão.
Na mentoria de carreira, a primeira sessão serve para fazer esse mapa com calma. Eu entrego um relatório em PDF, o Radar de Evolução Profissional, com as forças, as lacunas e as prioridades que aparecem na conversa, e a gente decide junto por onde começar.
Perguntas frequentes
Quando é a hora certa de mudar de emprego?
Quando você já tentou negociar o que incomoda e a resposta não veio, ou quando o problema está na cultura, na liderança ou no teto do cargo, e não no trabalho em si. Se o incômodo é com o trabalho, a pergunta é outra, a de mudar de rumo.
É melhor crescer na mesma empresa ou mudar?
Depende do que você busca. A pesquisa de Matthew Bidwell mostrou que quem vem de fora ganha mais, mas é avaliado pior nos dois primeiros anos, enquanto aprende como a empresa funciona. Quando a empresa atual ainda tem espaço, ficar e negociar pode render mais.
Como saber se o problema é a empresa ou a carreira?
Pergunte a si se faria o mesmo trabalho com vontade em outro lugar. Se a resposta é sim, o problema provavelmente é a empresa. Se a ideia de fazer o mesmo em outro lugar também cansa, olhe para a carreira.
Mentoria ajuda a decidir se fico ou saio?
Ajuda a separar os incômodos, testar as alternativas e decidir com mais informação. A decisão continua sendo sua, e o processo não garante promoção nem vaga. O que ele oferece é um espaço para pensar com alguém que conhece por dentro como as empresas decidem.
Fontes
- Bidwell, M. Paying More to Get Less: The Effects of External Hiring versus Internal Mobility. Administrative Science Quarterly, v. 56, n. 3, 2011.
- Knowledge at Wharton. Why external hires get paid more, and perform worse, than internal staff. 28 de março de 2012.
